leaves make like paper sounds

Wednesday, 17 February 2010

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Estou num sono embriagado de sonhos, e um oceano profundo me engole como num lento e surreal mergulho ao contrário. Eu nado para baixo e sempre para baixo, até o lugar onde o som apenas ressoa na forma de ondas hipnóticas.

É neste lugar onde eu quero estar. O lugar onde o tempo nem existe, ou, se existe, ninguém se importa. Aqui é onde eu posso ser e não ser.

Eu quero ser e não ser, aqui, para sempre.

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Monday, 18 May 2009

conto 1

Mais um conto inspirado num sonho que tive. Um, dois, três e já.

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Duas crianças correm numa floresta verde que nem esmeralda. Estão num sonho. Não sabem nem do que estão fugindo, só sabem que estão absurdamente felizes. Não há nada que possa medir a alegria delas naquele momento.

De repente, uma menina-ave aparece para levá-las ao interior da casinha de um velho no topo do rochedo mais alto das redondezas, com uma bela vista para um vilarejo isolado do mundo. Começa a nevar, mas lá dentro da cabana é aconchegante e quente. Suas alegrias somam-se com a do velhinho, a quem eles compartilham suas histórias e seus sonhos, inclusive o mesmo sonho no qual todos eles agora fazem parte.

Tudo fica cada vez mais surreal. Da janela, a menina-ave os observa com olhos de choro diante de um céu alaranjado, arranhado por flocos de neve que nascem das nuvens cor-de-fogo. Tamanha visão os leva às lágrimas, não sabem ao certo por quê. Resolvem então voltar para a floresta, voltar a fugir, voltar a sonhar mais. Talvez isso as leve a respostas, pensam as crianças. O velhinho entende, pois ele mesmo já fugiu antes, em sonhos passados, e despede-se, com sorriso de choro, dos visitantes aventureiros.

E lá vão elas duas novamente, correndo pelos campos já cobertos pela neve fina que caíra. Estão sozinhas como antes, mas riem e dançam enquanto percorrem distâncias cada vez maiores. Observando as paisagens encantadoras, elas não percebem que estão correndo demais. Tanta velocidade as faz voar. Ela se transforma numa menina-ave, ele num menino-ave, e se separam.

A mais nova menina-ave, devidamente alada, avista duas crianças correndo pela floresta já verde, pois a neve subitamente derreteu. Ela leva as crianças até a casa de um simpático velhinho morador de uma cabana no topo do rochedo mais alto das redondezas, com uma bela vista para um vilarejo isolado do mundo. Nesse ponto, flocos brancos voltam a cair do céu pincelado de laranja.

Da janela, a menina-ave, alada, penas brancas cobertas de neve, observa a dupla, que está transbordando alegria e compartilhando-a com o senhor morador da casinha. Onde está seu menino-ave? Bate nela uma sensação de nostalgia, que a leva compulsivamente às lágrimas.

Monday, 13 April 2009

divagações

Aos possíveis leitores dessa espelunca: o texto abaixo são apenas divagações sem sentido.

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O milagre nada mais é que uma fusão perversa da patética crença com o imparcial acaso. O que nos resta? O que está além de nossos crânios, que encerram nossos sentidos? Talvez seja preciso literalmente abrir minha cabeça. Uma tentativa absurda, mas inevitável, de libertar minhas sensações.

Seria precipitado? Se a própria ideia de libertar nasce de dentro da prisão, talvez não haja nada além disso tudo. É um risco necessário, mas talvez seja inútil. Que adianta fugir de uma cela que está cercada por um penhasco profundo e vazio?

Acabou.

Sunday, 12 April 2009

divagações

Aos possíveis leitores dessa espelunca: o texto abaixo foi uma ideia tirada de um sonho que tive. Como eu o escrevi na pressa, com medo de esquecer, esse texto só deve fazer sentido pra mim e olhe lá!

Enfim, ignorem-o.


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Não se sabe por que, mas os humanos vivem duas vidas. Eles não sabem disso, claro, nem intercambiam lembranças de suas outras vidas. Enfim, funciona assim: quando alguém morre pela primeira vez, após um tempo esta pessoa volta a nascer, em um corpo diferente, mas frequentemente com características físicas e psicológicas bastante similares às da "primeira vida".

O intervalo entre a morte da primeira vida e o nascimento da segunda geralmente é constante, de algumas dezenas de anos. Por causa desse fato singular, proporcionado pelos perversos desígnios do universo, é improvável, mas possível, que famílias inteiras voltem a se reunir ocasionalmente em sua segunda e última passagem pela terra. Para que isto ocorra, basta que as pessoas morram em intervalos coerentes, para que, novamente, um possa ser pai de outro, e outro possa ser filho de um, e que o pervertido designador escolha que toda a família renasça no mesmo lugar.

Foi assim que aconteceu com Ele e sua família e boa parte dos amigos; com um adicional perturbador: Ele soube que estava em sua segunda vida.

Monday, 6 April 2009

livro 1, parte 1

Ele sonhava com coisas tristes todo dia. E todo dia ia pensar a respeito, sozinho, após a aula, numa pracinha perto do colégio onde estudava há eternos seis anos. Para os pais, dizia que ia fazer a lição na casa de um colega de classe.

Um dia, uma terça-feira, enquanto estava a observar, mais uma vez, pela milionésima vez, sua vida medíocre passar diante de seus olhos cansados no parquinho situado bem no miolo da praça, uma menina aparece do nada, e do nada resolve ocupar a outra metade do banco que, de tanto que ele sentava, já era seu.

Monday, 23 March 2009

espasmo surreal

Os fins dos fins de semana geralmente me deixam em um estado de espírito absolutamente estranho e, dependendo das divagações que penso ou escrevo, também assustador. Doses de surrealismo não tardam a entrar na mistura, e a música só faz potencializar tudo.

O que vem a seguir foi escrito inicialmente à mão numa madrugada de domingo pra segunda.


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O que será de mim daqui a 100 anos? Já que estou vivo, posso me dar até ao luxo de imaginar algo além. Digamos, 200 anos depois.

Duzentos anos depois, a madeira do meu futuro caixão começa a misturar-se comigo. Sensações e sentimentos, misturados à madeira que um dia foi uma árvore provedora de ar, ar que um dia eu respirara. Ar que ainda persiste em mim, ou em meu corpo, 200 anos além, dentro de sua própria árvore. Mais 400 anos no futuro. Terra, areia, mudas de plantas surgem ou brotam perto de mim, comigo, talvez por minha causa. Eu e minha árvore servimos de adubo à planta que, algum dia, pode dar morada a outro corpo. Pode também dar ar para um futuro casal de namorados.

Mais 400 anos e o acaso brinca com sua própria ironia. Algumas moléculas de um grande amor que eu tivera 800 anos atrás juntam-se às minhas por intermédio do vento ou da chuva. Resquícios de minha consciência tocam ns resquícios da consciência dela. É um espetáculo surreal, presenciado por ninguém.

Um bilhão de anos depois, as memorias de todos estão tão estranhamente dispostas de maneira aleatória, numa terra já imparcial. A humanidade não existe nesse futuro, mas lá está, espalhada pelo chão frio. Um fragmento de felicidade da minha avó acaba de tocar no meu choro de felicidade após ter ouvido uma música tão bonita e triste. Meu pai e minha mãe voltam a se abraçar, depois de tantos anos. Mais um bilhão de anos e tudo isso é soprado para fora. Está tudo tão desolado, mas as sensações de alguma forma persistem. Um sorriso tímido de outrora toca o sol e as estrelas.

À medida que o futuro avança, fica mais difícil conceber a si mesmo e a essa vida. Morrerei, mas os grãos que me compõem continuarão a vagar por aí, agora pelo universo inteiro, pelas distâncias que eu, de tão extensas, jamais imaginara em vida. Uma supernova, nesse futuro, é formada por meu choro após sair do ventre da minha mãe e pela felicidade dela ao ver-me saindo de seu ventre.

Um vento solar escasso sopra parte de mim para longe, junto com meu irmão mais velho. Estamos a caminho do vácuo, aventurando-nos em ambientes desconhecidos, assim como um dia fizemos no quintal na casa da nossa avó no interior, quando pequenos, bilhões de anos atrás. Acompanha-me na aventura a menina por quem me apaixonei no segundo ano. Estamos indo para longe, olhando um ao outro novamente com aquele ar romântico de estudantes do colégio. Um novo vento pode nos separar a qualquer instante.

Até as lágrimas que escorreram de meu rosto podem voltar a seu dono num futuro longíquo. Talvez assim seja para lembrar que somos tão pequenos e indignos disso tudo que não podemos fazer mais nada a não ser vislumbrar e chorar.