espasmo surreal
Os fins dos fins de semana geralmente me deixam em um estado de espírito absolutamente estranho e, dependendo das divagações que penso ou escrevo, também assustador. Doses de surrealismo não tardam a entrar na mistura, e a música só faz potencializar tudo.
O que vem a seguir foi escrito inicialmente à mão numa madrugada de domingo pra segunda.
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O que será de mim daqui a 100 anos? Já que estou vivo, posso me dar até ao luxo de imaginar algo além. Digamos, 200 anos depois.
Duzentos anos depois, a madeira do meu futuro caixão começa a misturar-se comigo. Sensações e sentimentos, misturados à madeira que um dia foi uma árvore provedora de ar, ar que um dia eu respirara. Ar que ainda persiste em mim, ou em meu corpo, 200 anos além, dentro de sua própria árvore. Mais 400 anos no futuro. Terra, areia, mudas de plantas surgem ou brotam perto de mim, comigo, talvez por minha causa. Eu e minha árvore servimos de adubo à planta que, algum dia, pode dar morada a outro corpo. Pode também dar ar para um futuro casal de namorados.
Mais 400 anos e o acaso brinca com sua própria ironia. Algumas moléculas de um grande amor que eu tivera 800 anos atrás juntam-se às minhas por intermédio do vento ou da chuva. Resquícios de minha consciência tocam ns resquícios da consciência dela. É um espetáculo surreal, presenciado por ninguém.
Um bilhão de anos depois, as memorias de todos estão tão estranhamente dispostas de maneira aleatória, numa terra já imparcial. A humanidade não existe nesse futuro, mas lá está, espalhada pelo chão frio. Um fragmento de felicidade da minha avó acaba de tocar no meu choro de felicidade após ter ouvido uma música tão bonita e triste. Meu pai e minha mãe voltam a se abraçar, depois de tantos anos. Mais um bilhão de anos e tudo isso é soprado para fora. Está tudo tão desolado, mas as sensações de alguma forma persistem. Um sorriso tímido de outrora toca o sol e as estrelas.
À medida que o futuro avança, fica mais difícil conceber a si mesmo e a essa vida. Morrerei, mas os grãos que me compõem continuarão a vagar por aí, agora pelo universo inteiro, pelas distâncias que eu, de tão extensas, jamais imaginara em vida. Uma supernova, nesse futuro, é formada por meu choro após sair do ventre da minha mãe e pela felicidade dela ao ver-me saindo de seu ventre.
Um vento solar escasso sopra parte de mim para longe, junto com meu irmão mais velho. Estamos a caminho do vácuo, aventurando-nos em ambientes desconhecidos, assim como um dia fizemos no quintal na casa da nossa avó no interior, quando pequenos, bilhões de anos atrás. Acompanha-me na aventura a menina por quem me apaixonei no segundo ano. Estamos indo para longe, olhando um ao outro novamente com aquele ar romântico de estudantes do colégio. Um novo vento pode nos separar a qualquer instante.
Até as lágrimas que escorreram de meu rosto podem voltar a seu dono num futuro longíquo. Talvez assim seja para lembrar que somos tão pequenos e indignos disso tudo que não podemos fazer mais nada a não ser vislumbrar e chorar.
O que vem a seguir foi escrito inicialmente à mão numa madrugada de domingo pra segunda.
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O que será de mim daqui a 100 anos? Já que estou vivo, posso me dar até ao luxo de imaginar algo além. Digamos, 200 anos depois.
Duzentos anos depois, a madeira do meu futuro caixão começa a misturar-se comigo. Sensações e sentimentos, misturados à madeira que um dia foi uma árvore provedora de ar, ar que um dia eu respirara. Ar que ainda persiste em mim, ou em meu corpo, 200 anos além, dentro de sua própria árvore. Mais 400 anos no futuro. Terra, areia, mudas de plantas surgem ou brotam perto de mim, comigo, talvez por minha causa. Eu e minha árvore servimos de adubo à planta que, algum dia, pode dar morada a outro corpo. Pode também dar ar para um futuro casal de namorados.
Mais 400 anos e o acaso brinca com sua própria ironia. Algumas moléculas de um grande amor que eu tivera 800 anos atrás juntam-se às minhas por intermédio do vento ou da chuva. Resquícios de minha consciência tocam ns resquícios da consciência dela. É um espetáculo surreal, presenciado por ninguém.
Um bilhão de anos depois, as memorias de todos estão tão estranhamente dispostas de maneira aleatória, numa terra já imparcial. A humanidade não existe nesse futuro, mas lá está, espalhada pelo chão frio. Um fragmento de felicidade da minha avó acaba de tocar no meu choro de felicidade após ter ouvido uma música tão bonita e triste. Meu pai e minha mãe voltam a se abraçar, depois de tantos anos. Mais um bilhão de anos e tudo isso é soprado para fora. Está tudo tão desolado, mas as sensações de alguma forma persistem. Um sorriso tímido de outrora toca o sol e as estrelas.
À medida que o futuro avança, fica mais difícil conceber a si mesmo e a essa vida. Morrerei, mas os grãos que me compõem continuarão a vagar por aí, agora pelo universo inteiro, pelas distâncias que eu, de tão extensas, jamais imaginara em vida. Uma supernova, nesse futuro, é formada por meu choro após sair do ventre da minha mãe e pela felicidade dela ao ver-me saindo de seu ventre.
Um vento solar escasso sopra parte de mim para longe, junto com meu irmão mais velho. Estamos a caminho do vácuo, aventurando-nos em ambientes desconhecidos, assim como um dia fizemos no quintal na casa da nossa avó no interior, quando pequenos, bilhões de anos atrás. Acompanha-me na aventura a menina por quem me apaixonei no segundo ano. Estamos indo para longe, olhando um ao outro novamente com aquele ar romântico de estudantes do colégio. Um novo vento pode nos separar a qualquer instante.
Até as lágrimas que escorreram de meu rosto podem voltar a seu dono num futuro longíquo. Talvez assim seja para lembrar que somos tão pequenos e indignos disso tudo que não podemos fazer mais nada a não ser vislumbrar e chorar.


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